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20 agosto 2011

Árvore da Vida

(The Tree of Life, Terrence Malick, 2011). Apocalíptico (ressignificado).





28 dezembro 2010

Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (2010)





O melhor filme do ano.


05 dezembro 2010

Film Socialisme


Aos 80 anos, Jean-Luc Godard, um dos grandes gênios da Nouvelle Vague, nos oferece a experiência de mais uma bela obra. Seus fragmentos — que tencionam o próprio cinema e, o tempo todo, a nós mesmos, espectadores — são partes desligadas de seu todo. Cada imagem, palavra, gesto, cena, ato, som, diálogo, abre um campo infinito de possibilidades. Uma ode à multiplicidade de interpretações (!), sempre ligadas a ironias, críticas, pessimismos e uma paixão pela História, pela política, pelo cinema, pela arte em geral e, principalmente, pela negação de tudo isto a favor de uma “questão”.

O diretor exclama um bravo não a cada passagem — embora tudo em Filme socialismo pareça ser bem mais do que algo que simplesmente passe. Godard nega o tema, a unidade, a abordagem clara, a comodidade da compreensão, o raciocínio lógico. Somos postos ao desafio da abertura, ao embate consciente e ao mesmo tempo inconsciente entre pensar e entender. Por vezes é impossível distinguir uma ação da outra, pois o que buscamos e, raras vezes, encontramos são vestígios do que se costura na tela. Com este novo Godard nos sentimos ainda mais vivos dentro do cinema. Godard agarra-nos pelo pensamento e seu método eficaz é de nos tornar ativos — do contrário, durma — diante de três movimentações distintas das imagens.

Na primeira parte, temos um filósofo e uma cantora a bordo de um cruzeiro pelo mar Mediterrâneo discorrendo sobre assuntos sobrevindos por geração espontânea. Comentam-se sobre dinheiro, geometria e História em uma conversa desprovida de fluidez. O som é interrompido, a imagem é intercalada com resoluções caseiras e a linearidade é insustentável.

Do mesmo jeito é na peça seguinte, quando Godard se aproxima de uma família que recebe uma jornalista e uma cinegrafista. Elas, à espera de uma conversa com os pais, acabam se rendendo a uma sabedoria questionadora das crianças da casa. Neste capítulo de Filme socialismo, há a cena magistral de um menino que, em contraponto à infantilidade natural à idade, nos remete a uma vivência adulta. O menino nos mostra o quanto é preciso abrir-se ao olhar quando trava um diálogo provocativo com a cinegrafista. “Isto é um Renoir”, ela diz enquanto o observa pintar um quadro. “Não. Há muitas coisas que Renoir não enxergou”, retruca o garoto.

Já no último ato, Godard monta, em voice over, uma espécie de colagem e caminha por entre imagens de Odessa, Egito, Palestina, Grécia, Barcelona e Nápoles. Aqui, é possível compreender mais claramente o que disse em uma edição da década de 50, na Cahiers du Cinéma: “Se dirigir é um olhar, montar é um bater do coração”.

É impossível assumir um papel de crítica, que tanto necessita de uma iluminação sobre o filme, diante de um Godard que a rejeita. Atente: aqui, nada se esgota. O diretor demonstra que não está entre a imagem e sua visibilidade, mas sim numa posição que o coloca entre linguagem e visão. Pois é deste modo que o diretor consegue estabelecer uma relação com o social, a sociedade, o socialismo. Mas nada disso no sentido que estamos habituados a ver, ouvir ou falar. Colocando-se como sujeito que observa o mundo e toma como instrumento o pensamento, é a imagem — e o vídeo — que nos fará partilhar de uma sociedade aberta para as ideias e para os ideais. É assim que Godard prega a liberdade.


Publicado originalmente em dezembro de 2010 no site Laboratório Pop.

18 setembro 2010

Festival do Rio 2010 | Programação







































































Entre 23 de setembro e 7 de outubro.
Veja a programação.

23 julho 2010


(Vincere, Itália, França, 2009). Uma das principais armas de sedução do fascismo é estimular entre a população italiana o culto à personalidade do ditador — o que nada mais é do que um culto à sua imagem como representante do povo. Uma imagem fidedigna à realidade à medida que a imponência aparenta-se essência daquele que se perdera na proposição de um novo sistema político como salvação. O título do filme de Marco Bellocchio não é irônico, porém. Por um tom grave e preciso, imprime na tela uma ópera que evoca a euforia de uma conquista e a dor de uma paixão desmedida.

O clímax provém exatamente das imagens em multiplicidade de épocas, cores, procedências e sentidos. O diretor situa o espectador em uma posição privilegiada de contenção de valores do que nos apresenta em diversas manifestações da palavra: textos, documentos, falas, brados e canções. Tudo isso para atestar que a informação é objeto de manipulação da figura do ditador em um regime tal qual o fascismo. Assim, Vincere, no original, aproveita esta concepção de imagem — como retrato, lembrança ou representação — e parte de uma esfera particular a fim de tratar do período que fora perturbador a milhares de pessoas.

A perturbação, aqui, é íntima a Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), amante de Benito Mussolini (Filippo Timi) que engravidara ainda no tempo em que o homem frequentava os becos socialistas. Ela, uma italiana, que assim como ele expressa a todo o momento possuir convicções incontestáveis, protagoniza o enredo central de Vencer. Ida se apaixona por Benito e a ele se sacrifica amorosa e financeiramente. Sem gratidão, ele a abandona e, quando chama atenção dos holofotes do mundo, sustenta uma aparente perfeição ostentada pela estrutura familiar: marido (de outra mulher) e pai.

Mussolini faz questão de apagar os vestígios desse seu passado de paixão, interferindo no presente pela manobra de loucura e poder. Ida pára em um hospício e perde, além da beleza, a guarda de seu filho, quem fica sem ver por décadas até à morte. Ele, por sua vez, carrega o nome do pai, mas sem a admiração que porventura pudesse nutrir, mesmo pela cidadania imposta nas condições fascistas. Em uma cena magistral, Benito Jr. cruza os braços em frente ao busto do pai exposto no corredor do internato onde viveu. E em um ato sem hesitação derruba a imagem de quem não lhe representa nada. Daí em diante, já vemos Benito filho adulto em dois momentos distintos: ao ar livre e, depois, também em um hospício. Em ambos os locais, o filho aparece imitando Mussolini em discursos eloqüentes. A caricatura pode ser vista tanto como deboche, quanto como desapontamento, frustração.

E para quem assiste, a guerra é concebida com o salto de legendas na tela em combinação aos gritos perambulantes nas ruas e às exclamações de espectadores nos cinemas. Presente como protagonista natural da história (ou por vezes da História), o cinema e sua função informativa, pela exibição de cine-jornais, aparece como espaço de arquitetura de ideologias e eclosão do pensamento. As cenas mais emocionantes se passam neste espaço, a exemplo da que coloca os espectadores em polvorosa, em uma espécie de mescla de briga e exaltação. As silhuetas desses espectadores se confundem em meio às imagens mudas da figura do Duce na grande tela. O ritmo é ditado pelo acompanhamento do pianista, inócuo na sala escura, que imerso em seu trabalho funciona como analogia ao que, durante e depois da guerra, permanece inalterado.

As sessões de ficção também fazem referência à realidade dos personagens. Ida enquanto assiste O Garoto, de Charles Chaplin, não se contém. A reação diluída em lágrimas e expressões de incômodo, define um pouco das escolhas de Marco Bellocchio. O diretor não se submete a clichês do melodrama e, sem pedantismos, eleva seu próprio cinema a um nível popular. E, assim como a derrubada da estátua de Stálin marca o fim de uma era na História, no final também assistimos ao esmagamento de quem um dia fora ídolo. Comove e torna público o fato repleto de um elemento que a historiografia cancela como fonte de informação: a emoção.

04 janeiro 2010

Os melhores do ano

Não tento afirmar nenhuma verdade, apenas exponho minhas idiossincrasias nesta lista definitiva dos melhores do ano que passou. Um ano cinematograficamente ótimo e ao mesmo tempo fraco. Numa breve análise, só penso em relatividade. São bons filmes, mas, a maioria, não é comparável a obras-primas do cinema. Talvez a exceção seja Aquele Querido Mês de Agosto, que, por toda a sua inventidade, escape dessa tênue linha do que pode ser bom, se comparado fora deste ano em que a expectativa de sair do cinema satisfeita foi raras vezes atendida.

Mas eis minhas boas sessões de 2009:


10.A Troca | Clint Eastwood

Clint Eastwood é aqui correto. Bem conduzida, a história protagonizada por Angelina Jolie evolui de drama a suspense om uma sutileza que só uma boa direção consegue alcançar.


9.Valsa com Bashir | Ari Folman

Dá até um certo alívio não assistir cenas reais dos conflitos em solo libanês. Por isso, a animação intensifica a captação para o inconsciente virtual do personagem. Memórias que fluem bem até o momento em que a última cena revela que a realidade é dura demais para ser romantizada.

8.Inimigos Públicos | Michael Mann

Intenso e ágil, o filme funciona bem. Discordo de quem diz que o filme é forçado.


7.Aquele Querido Mês de Agosto | Miguel Gomes

Nunca presenciei uma sessão em que tanta gente desistisse e abandonasse a sala em menos de 30 minutos de filme. A cada saída, o filme me interessava ainda mais e não deu outra: fui conquistada pelo humor de Aquele Querido Mês de Agosto. Mais do que mesclar ficção no documentário, o filme se sobressai pela fuga da inércia do gênero.


6.Moscou | Eduardo Coutinho

Diretor de conceitos, acima de tudo, Coutinho estende o pano de Jogo de Cena e arma o espetáculo de Moscou. Discussões semelhantes ao primeiro são levantadas neste último, que problematiza o real mais uma vez. Talvez um pouco duro demais se descontextualizado dessa siginificação de complementaridade.


5.Deixa Ela Entrar | Tomas Alfredson

Assisti este daqui degustando cada detalhe que nem percebi que era terror. Acho exagero ser considerado o melhor do gênero de todos os tempos, como muito se comenta por ai, mas reconheço o encantamento pela forma com que o vampiresco se torna poético. Sem superestimá-lo, Deixa Ela Entrar tem umas imperfeições meio decepcionantes, mas compensadas pela melhor cena do ano:

http://www.youtube.com/watch?v=ZuBfmX3VBCE

4.Entre os Muros da Escola | Laurent Cantet

Adoro como a lente realista do diretor joga na cara de outros filmes que tentam fazer o mesmo para convencer com verossimilhança roteiros fracos. Reflexivo, Entre les murs, no original, é objeto pedagógico de primeira, sem burocracias sociológicas.

3.Bastardos Inglórios | Quentin Tarantino

Não há muito o que reclamar se a queixa refere-se aos excessos. Em se tratando de Tarantino, a História é invadida por uma licença póetica super empolgante.

2.Amantes | James Gray

O filme mais "ame ou odeie" da lista precisa de uma boa justificativa para aparecer em segundo no ranking. Talvez não consiga convencer a muitos de que o filme é bom por motivos simples, mas me indigno quando não reconhecem a forma com que os clichês neste filme saltam para outro nível e se fazem necessários para se chegar ao final feliz paradoxalmente angustiante.


1.Gran Torino | Clint Eastwood

Flui entre a evolução constante de humor-ironia-tensão, saltando aos olhos reflexões sobre a América madrasta má de etnias e grupos à margem social. Simplicidade para reforçar tradicionalismos, multiplicidade para tensionar estereótipos. Clint Eastwood vem com Gran Torino para nos lembrar o que é o velho e bom cinema, com roteiro e direção de qualidade, e, ainda, com interpretação enérgica. Sinto-me livre para dizer que Gran faz o meu tipo favorito de 'filme de ação' (referente ao espectador ativo) – quem assiste passivamente sai perdendo.

04 setembro 2009

(Two Lovers, EUA, 2008). Quando descubro que interessante é aquilo que lida com conflitos de contrastes sutis e implícitos, e que, tal como em teatro, uma cena bem se sucede após outra a partir dessas tenacidades, eis que na grande tela surge a oportunidade de assistir a Amantes. Personagens bem construídos e sem caricaturas ao bel-prazer do final feliz — exatamente o que James Gray traz como um imperativo da pós-modernidade: um pedantismo não pejorativo por se fazer necessário. Tudo para compor um fino ataque a clichês ao utilizá-los (!) para filmar um conto sobre felicidade: elementos essenciais a favor da contestação contra as formas consagradas para se falar de amor. Por fim, e no fim, um sensacional suspiro interrompido.

28 maio 2009

child acting

Thiago da Silva
Mutum, Sandra Kogut

(Mutum, Brasil, França, 2007)


Nikbakht Noruz
E Buda Desabou de Vergonha, Hana Malkmalbaf
(Buda as sharm foru rikht, Irã, 2007)



Pernilla Allwin e Bertil Guve
Fanny e Alexander, Ingmar Bergman
(
Fanny och Alexander, Alemanha, França, Suécia,1982)


Enzo Staiola
Ladrões de Bicicleta, Vittorio de Sica

(Ladri di Biciclette, Itália, 1948)


Subir Bannerjee
Canção da Estrada, Satyajit Ray

(Pather Panchali, Índia, 1955)



Omero Antonutti
Pai Patrão, Vittorio e Paolo Taviani
(Padre Padrone, Itália, 1977)


Benóit Ferreux
O Sopro no Coração, Louis Malle
(
Le Souffle Au Coeur, Alemanha, França, Itália, 1971)


Leora Barbara
Stella, Sylvie Verheyde
(Stella, França, 2008)


Jodie Foster
Alice Não Mora Mais Aqui, Martin Scorsese
(Alice doesn't live here anymore, EUA, 1974)

(em constante construção)

23 maio 2009


(Dung Che Sai Duk Redux, Hong Kong, China, 2008). Mesmo diretor do talvez mais pop de sua filmografia, Um Beijo Roubado (2007), e do queridinho de muitos cinéfilos Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar Wai em Cinzas do Passado Redux enche nossos olhos com um cinema quase sensório. A fotografia é rara. Os efeitos imagéticos estão em perfeito equilíbrio. Seus planos valorizam o diagonal, não à toa mediante as declinações dos personagens. As cenas de ação têm um romantismo que só vendo, mesmo. Não é um filme de espadas e arranhões. Muito menos de romances proibidos. Kar Wai soube aqui se apropriar do que a arte cinematográfica tem a lhe oferecer. Esqueça a sinopse. Falar desse jeito faz eu me sentir uma verdadeira esteta, mas vez ou outra é necessário fazer um mãos-ao-alto pela estética: deixando a arte me levar.

19 maio 2009


(Vals Im Bashir, Israel, Alemanha, França, EUA, Finlândia, Suíça, Bélgica, Austrália, 2008). Quando temos à frente cerca de 90 minutos de um filme em animação para falar de guerra (e não só), bate um certo alívio por não estarmos assistindo cenas reais dos conflitos em solo libanês. Somadas a isso, temos as memórias do personagem principal nos captando para um inconsciente virtual. Fuga do real. O sentido do filme é intensificado pela animação. Estamos envolvidos em uma Valsa com Bashir, em reflexões acompanhadas de empolgante trilha sonora em um 2-D imperfeito para as ocasiões certas. E no último minuto de filme, com o corte suave, damos um salto contrastante de volta à realidade da nossa dimensão (midiática). Ótimas escolhas de Ari Folman, porque eu não queria romantizar o terrível, tampouco me ausentar da consciência de que tudo aquilo realmente existiu/existe.

08 fevereiro 2009

Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças*

(Andarilho, 2006, Brasil). Pouco me lembro dos sonhos advindos da sonolência em que caí após fazer mais uma leitura de páginas de Proust*, mas me recordo de imagens e sensações oníricas que me fizeram vir à memória a minha última sessão de cinema no Cine Arte UFF. Dos efeitos do sono pouco se tem proveito, visto que as recordações das histórias são, em geral, um esforço psíquico que tende a se perder em divagações. Talvez nem este primeiro parágrafo também faça muito sentido, tamanha minha vontade em expressar as sensações de se acordar com um filme na cabeça e escrever sobre o mesmo minutos após as ligeiras impressões sobrevindas ao despertar.

Pode ser pelo fato de eu ter adormecido com palavras contemplativas à natureza que tenham me saltado aos olhos passagens que funcionariam muito bem como ilustrações de um livro de Proust, caso vivesse ele no Brasil, mais precisamente no interior, nas linhas das estradas que cruzam o país. O filme que justifica a prolixidade de quem vos escreve é Andarilho, do qual foi diretor, editor e fotógrafo Cao Guimarães.

O documentário presenteia os olhos com belíssimos planos observacionais, que faz das coincidências uma realidade que paralisa o espectador entre a liberdade e a crueldade como justificativas pelo andar sem rumo. Motivos estes não explicitados pelos personagens em forma de depoimento, ainda bem. A opção de Cao faz bem-vindos pensamentos e contemplações das caminhadas daqueles que podem estar ali por qualquer causa, talvez especulada por interessados em entender as dinâmicas sociais.

A antropologia e a filosofia hão de dar conta (?) do entendimento de uma pessoa que poderia ser somente aquela que vaga sem rumo, como um ser pensante que põe em dúvida a própria consciência, de maneira que a loucura aparece também como elemento essencial à compreensão do modo de vida. Além disso, quem disse que eles vagam sem rumo, ou como ainda dizem clichês, sem direção? Temos sempre um ponto de chegada? Quem desiste do rumo é louco por que faz do vagar uma opção de existência ou quem desiste do rumo é o louco que faz da vida uma opção? Ou ainda, será que não o faz obrigada por circunstâncias quaisquer? Pode mesmo ser considerado louco? E vagar seria a melhor forma de nos referirmos às ações deste?

Andarilho pode não conter respostas para as perguntas que evocam espaços meditativos das cenas que vemos passar. Somos espectadores privilegiados por temos a oportunidade de assistirmos a um registro daquilo que passa distraidamente por olhares apressados nas estradas. Nos é permitido o dom de descobrir a sabedoria que muitos escondem atrás de seus sacos de lixo, carroças improvisadas, farrapos de roupas e silêncios quebrados pela própria fala solitária no meio de onde a maioria corre com destino certo. Quando a câmera passeia pelo asfalto em ângulos singulares, andarilhos podemos ser nós por alguns instantes de ilusão. Razão que o tempo dá. Fruto adverso do que se vê na tela.