20 agosto 2011
28 dezembro 2010
Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (2010)
05 dezembro 2010
Film Socialisme
Publicado originalmente em dezembro de 2010 no site Laboratório Pop.
18 setembro 2010
23 julho 2010
O clímax provém exatamente das imagens em multiplicidade de épocas, cores, procedências e sentidos. O diretor situa o espectador em uma posição privilegiada de contenção de valores do que nos apresenta em diversas manifestações da palavra: textos, documentos, falas, brados e canções. Tudo isso para atestar que a informação é objeto de manipulação da figura do ditador em um regime tal qual o fascismo. Assim, Vincere, no original, aproveita esta concepção de imagem — como retrato, lembrança ou representação — e parte de uma esfera particular a fim de tratar do período que fora perturbador a milhares de pessoas.
A perturbação, aqui, é íntima a Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), amante de Benito Mussolini (Filippo Timi) que engravidara ainda no tempo em que o homem frequentava os becos socialistas. Ela, uma italiana, que assim como ele expressa a todo o momento possuir convicções incontestáveis, protagoniza o enredo central de Vencer. Ida se apaixona por Benito e a ele se sacrifica amorosa e financeiramente. Sem gratidão, ele a abandona e, quando chama atenção dos holofotes do mundo, sustenta uma aparente perfeição ostentada pela estrutura familiar: marido (de outra mulher) e pai.
Mussolini faz questão de apagar os vestígios desse seu passado de paixão, interferindo no presente pela manobra de loucura e poder. Ida pára em um hospício e perde, além da beleza, a guarda de seu filho, quem fica sem ver por décadas até à morte. Ele, por sua vez, carrega o nome do pai, mas sem a admiração que porventura pudesse nutrir, mesmo pela cidadania imposta nas condições fascistas. Em uma cena magistral, Benito Jr. cruza os braços em frente ao busto do pai exposto no corredor do internato onde viveu. E em um ato sem hesitação derruba a imagem de quem não lhe representa nada. Daí em diante, já vemos Benito filho adulto em dois momentos distintos: ao ar livre e, depois, também em um hospício. Em ambos os locais, o filho aparece imitando Mussolini em discursos eloqüentes. A caricatura pode ser vista tanto como deboche, quanto como desapontamento, frustração.
E para quem assiste, a guerra é concebida com o salto de legendas na tela em combinação aos gritos perambulantes nas ruas e às exclamações de espectadores nos cinemas. Presente como protagonista natural da história (ou por vezes da História), o cinema e sua função informativa, pela exibição de cine-jornais, aparece como espaço de arquitetura de ideologias e eclosão do pensamento. As cenas mais emocionantes se passam neste espaço, a exemplo da que coloca os espectadores em polvorosa, em uma espécie de mescla de briga e exaltação. As silhuetas desses espectadores se confundem em meio às imagens mudas da figura do Duce na grande tela. O ritmo é ditado pelo acompanhamento do pianista, inócuo na sala escura, que imerso em seu trabalho funciona como analogia ao que, durante e depois da guerra, permanece inalterado.
As sessões de ficção também fazem referência à realidade dos personagens. Ida enquanto assiste O Garoto, de Charles Chaplin, não se contém. A reação diluída em lágrimas e expressões de incômodo, define um pouco das escolhas de Marco Bellocchio. O diretor não se submete a clichês do melodrama e, sem pedantismos, eleva seu próprio cinema a um nível popular. E, assim como a derrubada da estátua de Stálin marca o fim de uma era na História, no final também assistimos ao esmagamento de quem um dia fora ídolo. Comove e torna público o fato repleto de um elemento que a historiografia cancela como fonte de informação: a emoção.
04 janeiro 2010
Os melhores do ano
Não tento afirmar nenhuma verdade, apenas exponho minhas idiossincrasias nesta lista definitiva dos melhores do ano que passou. Um ano cinematograficamente ótimo e ao mesmo tempo fraco. Numa breve análise, só penso em relatividade. São bons filmes, mas, a maioria, não é comparável a obras-primas do cinema. Talvez a exceção seja Aquele Querido Mês de Agosto, que, por toda a sua inventidade, escape dessa tênue linha do que pode ser bom, se comparado fora deste ano em que a expectativa de sair do cinema satisfeita foi raras vezes atendida.
Mas eis minhas boas sessões de 2009:
10.A Troca | Clint Eastwood
Clint Eastwood é aqui correto. Bem conduzida, a história protagonizada por Angelina Jolie evolui de drama a suspense om uma sutileza que só uma boa direção consegue alcançar.
9.Valsa com Bashir | Ari Folman
Dá até um certo alívio não assistir cenas reais dos conflitos em solo libanês. Por isso, a animação intensifica a captação para o inconsciente virtual do personagem. Memórias que fluem bem até o momento em que a última cena revela que a realidade é dura demais para ser romantizada.
8.Inimigos Públicos | Michael Mann
Intenso e ágil, o filme funciona bem. Discordo de quem diz que o filme é forçado.
7.Aquele Querido Mês de Agosto | Miguel Gomes
Nunca presenciei uma sessão em que tanta gente desistisse e abandonasse a sala em menos de 30 minutos de filme. A cada saída, o filme me interessava ainda mais e não deu outra: fui conquistada pelo humor de Aquele Querido Mês de Agosto. Mais do que mesclar ficção no documentário, o filme se sobressai pela fuga da inércia do gênero.
6.Moscou | Eduardo Coutinho
Diretor de conceitos, acima de tudo, Coutinho estende o pano de Jogo de Cena e arma o espetáculo de Moscou. Discussões semelhantes ao primeiro são levantadas neste último, que problematiza o real mais uma vez. Talvez um pouco duro demais se descontextualizado dessa siginificação de complementaridade.
5.Deixa Ela Entrar | Tomas Alfredson
Assisti este daqui degustando cada detalhe que nem percebi que era terror. Acho exagero ser considerado o melhor do gênero de todos os tempos, como muito se comenta por ai, mas reconheço o encantamento pela forma com que o vampiresco se torna poético. Sem superestimá-lo, Deixa Ela Entrar tem umas imperfeições meio decepcionantes, mas compensadas pela melhor cena do ano:
http://www.youtube.com/watch?v=ZuBfmX3VBCE
4.Entre os Muros da Escola | Laurent Cantet
Adoro como a lente realista do diretor joga na cara de outros filmes que tentam fazer o mesmo para convencer com verossimilhança roteiros fracos. Reflexivo, Entre les murs, no original, é objeto pedagógico de primeira, sem burocracias sociológicas.
3.Bastardos Inglórios | Quentin Tarantino
Não há muito o que reclamar se a queixa refere-se aos excessos. Em se tratando de Tarantino, a História é invadida por uma licença póetica super empolgante.
2.Amantes | James Gray
O filme mais "ame ou odeie" da lista precisa de uma boa justificativa para aparecer em segundo no ranking. Talvez não consiga convencer a muitos de que o filme é bom por motivos simples, mas me indigno quando não reconhecem a forma com que os clichês neste filme saltam para outro nível e se fazem necessários para se chegar ao final feliz paradoxalmente angustiante.
1.Gran Torino | Clint Eastwood
Flui entre a evolução constante de humor-ironia-tensão, saltando aos olhos reflexões sobre a América madrasta má de etnias e grupos à margem social. Simplicidade para reforçar tradicionalismos, multiplicidade para tensionar estereótipos. Clint Eastwood vem com Gran Torino para nos lembrar o que é o velho e bom cinema, com roteiro e direção de qualidade, e, ainda, com interpretação enérgica. Sinto-me livre para dizer que Gran faz o meu tipo favorito de 'filme de ação' (referente ao espectador ativo) – quem assiste passivamente sai perdendo.
04 setembro 2009

28 maio 2009
child acting
Pernilla Allwin e Bertil GuveFanny e Alexander, Ingmar Bergman
(Fanny och Alexander, Alemanha, França, Suécia,1982)
Enzo StaiolaLadrões de Bicicleta, Vittorio de Sica
(Ladri di Biciclette, Itália, 1948)
Subir BannerjeeCanção da Estrada, Satyajit Ray
(Pather Panchali, Índia, 1955)
Omero AntonuttiPai Patrão, Vittorio e Paolo Taviani
(Padre Padrone, Itália, 1977)
Benóit FerreuxO Sopro no Coração, Louis Malle
(Le Souffle Au Coeur, Alemanha, França, Itália, 1971)
Leora BarbaraStella, Sylvie Verheyde
(Stella, França, 2008)
Jodie Foster
Alice Não Mora Mais Aqui, Martin Scorsese
(Alice doesn't live here anymore, EUA, 1974)
(em constante construção)
23 maio 2009

19 maio 2009

08 fevereiro 2009
Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças*
(Andarilho, 2006, Brasil). Pouco me lembro dos sonhos advindos da sonolência em que caí após fazer mais uma leitura de páginas de Proust*, mas me recordo de imagens e sensações oníricas que me fizeram vir à memória a minha última sessão de cinema no Cine Arte UFF. Dos efeitos do sono pouco se tem proveito, visto que as recordações das histórias são, em geral, um esforço psíquico que tende a se perder em divagações. Talvez nem este primeiro parágrafo também faça muito sentido, tamanha minha vontade em expressar as sensações de se acordar com um filme na cabeça e escrever sobre o mesmo minutos após as ligeiras impressões sobrevindas ao despertar.
Pode ser pelo fato de eu ter adormecido com palavras contemplativas à natureza que tenham me saltado aos olhos passagens que funcionariam muito bem como ilustrações de um livro de Proust, caso vivesse ele no Brasil, mais precisamente no interior, nas linhas das estradas que cruzam o país. O filme que justifica a prolixidade de quem vos escreve é Andarilho, do qual foi diretor, editor e fotógrafo Cao Guimarães.
O documentário presenteia os olhos com belíssimos planos observacionais, que faz das coincidências uma realidade que paralisa o espectador entre a liberdade e a crueldade como justificativas pelo andar sem rumo. Motivos estes não explicitados pelos personagens em forma de depoimento, ainda bem. A opção de Cao faz bem-vindos pensamentos e contemplações das caminhadas daqueles que podem estar ali por qualquer causa, talvez especulada por interessados em entender as dinâmicas sociais.
A antropologia e a filosofia hão de dar conta (?) do entendimento de uma pessoa que poderia ser somente aquela que vaga sem rumo, como um ser pensante que põe em dúvida a própria consciência, de maneira que a loucura aparece também como elemento essencial à compreensão do modo de vida. Além disso, quem disse que eles vagam sem rumo, ou como ainda dizem clichês, sem direção? Temos sempre um ponto de chegada? Quem desiste do rumo é louco por que faz do vagar uma opção de existência ou quem desiste do rumo é o louco que faz da vida uma opção? Ou ainda, será que não o faz obrigada por circunstâncias quaisquer? Pode mesmo ser considerado louco? E vagar seria a melhor forma de nos referirmos às ações deste?
Andarilho pode não conter respostas para as perguntas que evocam espaços meditativos das cenas que vemos passar. Somos espectadores privilegiados por temos a oportunidade de assistirmos a um registro daquilo que passa distraidamente por olhares apressados nas estradas. Nos é permitido o dom de descobrir a sabedoria que muitos escondem atrás de seus sacos de lixo, carroças improvisadas, farrapos de roupas e silêncios quebrados pela própria fala solitária no meio de onde a maioria corre com destino certo. Quando a câmera passeia pelo asfalto em ângulos singulares, andarilhos podemos ser nós por alguns instantes de ilusão. Razão que o tempo dá. Fruto adverso do que se vê na tela.



















