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10 março 2011


(Rapt, França, 2009). Sequestro de Um Herói abre e fecha um ciclo, que se inicia no isolamento físico de um poderoso empresário no cativeiro, e culmina no seu afastamento social. Com narrativa que coloca o espectador entre a tensão da ação e a incerteza do suspense, Lucas Belvaux constrói o personagem ao mesmo tempo em que o esfacela. Presidente e maior acionista de uma grande empresa, Stanislas Graff curte a vida à base de jogos e de amantes, até que o sequestro o torna centro das atenções na França e revela segredos que põem sua respeitável imagem em decadência.

O sequestro, representado com a fugacidade de um enredo policial, concentra-se no drama de um homem que, por hora, se desconhece. Ator em filmes de Marcel Camus e de Claude Chabrol, o diretor belga transmite os fatos de modo simples e racional. Rapt, no original em francês, apresenta um universo cotidiano de causa e consequência: o que está em jogo, em um primeiro momento, é apenas a vida do milionário. No entanto, pelas conversas e manifestações de desinteresse por parte dos sócios e familiares de Graff, nota-se os percalços reais que o filme propõe evidenciar.

Ao estabelecer um ponto de contato entre crime, polícia e mídia, o diretor trata de um conceito paradoxal para quem tem poder, e agora, fama: liberdade. Por isso, a importância da interpelação da imprensa no desenrolar do sequestro de Stanislas Graff. Responsáveis pela popularização do rapto, jornais e revistas franceses emergem, cuidadosamente, como mediadores da imagem do milionário. A família descobre as notícias das traições em paralelo à sociedade – audiência que se interessa cada vez mais nos desregramentos do homem desaparecido. À medida que nomes femininos surgem vinculados à vida oculta de Graff, as mulheres representantes de sua vida formal – esposa, filhas e sogra – demonstram, simultaneamente, seus caráteres, expostos como frutos do conservadorismo burguês. São comuns diálogos que se preocupam mais com o dinheiro do resgate, em detrimento da sobrevivência do personagem.

Respeito, ego e, mais uma vez, imagem geram decepção e atropelam o afeto. Belveaux mostra que perdoar Graff não cabe aos integrantes dessa conservadora família francesa – a recepção fria declara ao sobrevivente que a honra supera o amor. Sequestro de Um Herói avalia a felicidade como objeto utópico e parece afirmar que a privação da liberdade natural é o novo mal-estar contemporâneo, inerente às classes que detêm o capital.

Publicado originalmente na Revista Moviola | Festival do Rio.